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Governador aliado de Randolfe e Lula vai derrubar igreja evangélica no Amapá

Faltam 11 dias. É esse o prazo que separa a pequena igreja evangélica da comunidade do Aturiá, no bairro Araxá, em Macapá, da demolição anunciada pelo Governo do Amapá para a abertura de uma via que fará parte da nova Orla do Aturiá, obra executada na gestão do governador Clécio Luís, aliado político do presidente Lula e do senador Randolfe Rodrigues. Às margens do Rio Amazonas, o templo simples, humilde, mas carregado de significado, resiste como símbolo de fé, acolhimento e apoio social construído ao longo de mais de 35 anos.

A igreja, erguida e mantida pela própria comunidade, é mais que um espaço religioso. Para os moradores, ela representa um ponto de apoio em momentos de dor, doença e vulnerabilidade social. Ali, ao longo de décadas, foram distribuídas cestas básicas, feitas orações, acolhidas famílias em sofrimento e resgatadas pessoas da dependência química e da exclusão social.

A poucos dias da demolição, o clima é de angústia e despedida. “É muito triste, o coração fica apertado”, resume Alcir Chaves da Silva Santos, de 68 anos, moradora da comunidade há 36 anos e frequentadora da igreja desde a sua fundação. Ela ajuda a zelar pelo espaço todos os dias. “Essa igreja é da comunidade. Nós cuidamos, nós construímos, nós trabalhamos aqui. Agora querem quebrar tudo sem conversar com ninguém. O Governo nunca nos procurou para conversar”, lamenta.

Segundo Alcir, moradores e fiéis receberam notificações para desocupação sem que houvesse diálogo efetivo com o governo. Ela também relata que casas vizinhas a ela já foram demolidas há meses e que indenizações prometidas ainda não foram pagas. “Tem gente doente, com depressão, com câncer. Tem gente que já morreu com tanta pressão. A gente não é contra o progresso, mas precisa de respeito e de uma alternativa”, afirma.

A mesma preocupação é compartilhada pelo servidor público Carlos, de 45 anos, morador do Araxá há mais de 15 anos e membro da igreja. Ele relata que a decisão judicial prevê a retirada do templo com apoio policial e que os valores apresentados como indenização pelo Estado não permitem a reconstrução da igreja dentro da própria comunidade. “O que foi oferecido não dá para comprar um terreno aqui, e muito menos construir outro templo. A especulação imobiliária tomou conta da área. Os lotes ficaram caríssimos”, explica.

Carlos também critica o fato de a igreja evangélica não ter sido contemplada no projeto da nova orla, ao contrário de outros equipamentos religiosos da comunidade. “A igreja católica da comunidade felizmente foi mantida, mas não entendemos porque não fizeram o mesmo com a nossa igreja. Nós não somos contra a obra. Queremos apenas que o governo encontre um local aqui mesmo no Aturiá para a igreja continuar existindo. Essa igreja tem valor histórico, social e sentimental”, reforça.

O presidente da Associação de Moradores do Aturiá (AMA), José Elizaldo da Silva Santos, destaca que a comunidade está organizada e busca apenas o reconhecimento de direitos. “Não estamos impondo regras, estamos lutando por dignidade. O tratamento que estamos recebendo é desumano e injusto”, afirma. Ele também contesta a narrativa de que a comunidade estaria atrasando a obra. “Pelo ritmo atual, essa é uma obra que ainda levará anos. O que existe é interesse em desocupar uma área valorizada”, denuncia.

A obra de requalificação da Orla do Aturiá, que conta com emenda do senador Davi Alcolumbre, enfrenta atrasos significativos. Inicialmente prevista para ser entregue em meados de 2025, teve o prazo prorrogado para janeiro de 2026. Mesmo assim, há relatos de dificuldades na execução, além de problemas estruturais, como cedimento de calçadas, o que tem gerado preocupação com a segurança e a mobilidade no local.

Enquanto máquinas avançam lentamente e o cronograma segue indefinido, a pequena igreja à beira do Amazonas vive seus últimos dias. Fiéis se reúnem para os cultos finais, conscientes de que, em breve, o espaço físico pode desaparecer. O pedido da comunidade é simples: não barrar o progresso, mas garantir que ele não apague histórias, laços e vidas construídas ao longo de décadas.

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