Uso de canetas emagrecedoras cresce 88% no Brasil e especialista alerta para benefícios e riscos do tratamento
O uso das chamadas “canetas emagrecedoras” disparou no Brasil em 2025 e trouxe à tona um debate sobre eficácia, segurança e uso responsável desses medicamentos. Dados do Conselho Federal de Farmácia apontam que o consumo de fármacos como Ozempic e Mounjaro cresceu 88% no país, alcançando 30% dos lares brasileiros. No mesmo período, o Brasil importou cerca de R$ 9 bilhões desses medicamentos.
Em entrevista ao Portal 1 Norte, o nutricionista-farmacêutico Diego Yoshio explicou como essas medicações atuam no organismo, quais são as vantagens no tratamento da obesidade e os principais cuidados necessários.
Como funcionam
Os medicamentos pertencem à classe dos análogos de GLP-1 ou de dupla ação GIP/GLP-1. Segundo Yoshio, o principal mecanismo é o retardo do esvaziamento gástrico.
“Eles diminuem a velocidade com que o estômago esvazia. Com isso, a pessoa sente saciedade por mais tempo e reduz naturalmente a ingestão de alimentos”, explica.
Além disso, estimulam a secreção de insulina de forma dependente da glicose, melhorando o controle glicêmico, especialmente em pessoas com resistência à insulina.
Estudos recentes também indicam ação no sistema nervoso central, modulando neurotransmissores ligados ao sistema de recompensa. Isso ajuda a explicar a redução da compulsão alimentar e da chamada fome emocional. Há ainda relatos de diminuição no consumo de álcool e cigarro.
Benefícios no tratamento da obesidade
Para o especialista, as canetas são uma ferramenta eficaz quando há indicação clínica e acompanhamento adequado.
“A obesidade traz riscos importantes, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e alterações hepáticas. Quando bem acompanhadas, essas medicações ajudam significativamente no emagrecimento e na melhora metabólica”, afirma.
Ele ressalta, porém, que o medicamento trata a consequência — o excesso de peso — e não necessariamente a causa, que muitas vezes envolve fatores emocionais e comportamentais.
Efeitos colaterais e sinais de alerta
O efeito adverso mais comum é a náusea, que pode atingir entre 40% e 70% dos usuários, dependendo da medicação e da dose.
Outros sintomas incluem:
• Vômitos
• Constipação ou diarreia
• Sensação de estômago cheio
• Azia
Em geral, esses efeitos surgem no início do tratamento ou após aumento da dose.
Dor abdominal intensa e persistente, vômitos contínuos e febre associada à dor são sinais de alerta e exigem avaliação médica imediata, pois podem indicar complicações como pancreatite.
Quem deve ter mais cautela
Pessoas com histórico de pancreatite, problemas na vesícula, doença renal ou alterações pancreáticas precisam de avaliação criteriosa antes de iniciar o uso.
Segundo Yoshio, pacientes obesos frequentemente já apresentam resistência à insulina e possível sobrecarga do pâncreas. “O uso indiscriminado pode acelerar complicações em quem já tem predisposição”, alerta.
Por isso, exames laboratoriais e acompanhamento profissional são considerados essenciais antes e durante o tratamento.
Risco de produtos irregulares
O crescimento acelerado do mercado também trouxe aumento de produtos irregulares. Há relatos de contrabando, falsificações e aquisição pela internet sem registro no Brasil.
“O risco muitas vezes não está apenas na medicação, mas no uso sem prescrição, na dose incorreta e na compra de produtos de origem duvidosa”, afirma o especialista.
A recomendação é que o medicamento seja prescrito por profissional habilitado e adquirido apenas em farmácias regularizadas.
Perda de massa muscular e risco de reganho
Um ponto importante é a perda de massa muscular durante o emagrecimento. Sem acompanhamento nutricional e prática de exercícios, até 45% do peso perdido pode ser massa magra.
Isso reduz o metabolismo basal e aumenta o risco de recuperar o peso após a suspensão do medicamento.
Para minimizar esse impacto, o especialista recomenda ingestão adequada de proteínas, prática de treinamento de força e acompanhamento nutricional. Com essas estratégias, a perda muscular pode ser reduzida para cerca de 10% a 20%.
Uso racional é fundamental
Diego Yoshio reforça que as canetas emagrecedoras são uma ferramenta terapêutica relevante, mas não substituem mudança de hábitos.
“Quando usadas com acompanhamento médico e nutricional, elas ajudam muito. Mas o uso precisa ser racional, por tempo determinado e com estratégia para manutenção do peso depois”, conclui.
Diante do crescimento expressivo do consumo no Brasil, a orientação central é clara: informação, prescrição adequada e acompanhamento profissional são fundamentais para que os benefícios superem os riscos.



