Conexão Vorcaro: R$ 400 milhões da Amprev e mensagens reveladas pela Veja ampliam conexões de Clécio e Alcolumbre com caso Master

Recursos da previdência dos servidores foram aplicados no banco durante o governo Clécio Luís; revista também revelou diálogos de intimidade entre Davi Alcolumbre e Daniel Vorcaro e retomou acusação de suposto pagamento de US$ 30 milhões ao senador, que nega as irregularidades
O escândalo envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master ganhou um novo capítulo com a divulgação de mensagens que mostram uma relação de proximidade entre o ex-banqueiro e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). No Amapá, o caso também alcança a gestão do governador Clécio Luís: durante seu governo, a Amapá Previdência (Amprev) aplicou aproximadamente R$ 400 milhões dos recursos previdenciários dos servidores estaduais em letras financeiras do Master.
Os aportes foram aprovados em três operações realizadas em julho de 2024. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, documentos da investigação apontam que as aplicações somaram R$ 400 milhões. A Polícia Federal passou a investigar o episódio e afirma que as deliberações ignoraram alertas internos, riscos relacionados ao investimento e a exigência prévia de documentos técnicos complementares.
O então presidente da Amprev, Jocildo Lemos, havia sido nomeado para o cargo durante o governo Clécio Luís. De acordo com a Folha, Lemos chegou à função por indicação de Davi Alcolumbre e havia atuado como tesoureiro de campanha do senador. A PF atribui a ele papel central na condução das reuniões que resultaram nas aplicações.
Mensagens mostram intimidade entre Davi e Vorcaro
As novas revelações foram publicadas nesta quinta-feira (24) pela revista Veja e confirmadas posteriormente pela Folha de S.Paulo. As mensagens, extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, mostram conversas pessoais e frequentes entre o ex-controlador do Master e Davi Alcolumbre.
Em fevereiro de 2025, após Vorcaro parabenizá-lo pela eleição para a presidência do Senado, Alcolumbre respondeu agradecendo pelo “carinho e amizade fraterna”. Em outra mensagem reproduzida pelas reportagens, o senador diz ser “irmão” do banqueiro. Os registros divulgados também mostram menções a encontros, festas e articulações envolvendo outras autoridades.
Outro diálogo divulgado pela revista mostra Vorcaro perguntando ao senador por informações sobre um “amigo”. Alcolumbre responde que estava atuando no assunto e menciona “pressão”. As mensagens não esclarecem, isoladamente, quem seria a pessoa mencionada nem qual era exatamente a providência discutida.
Relação havia sido negada
As mensagens ganham relevância também porque, segundo a Veja, Alcolumbre chegou a negar a colegas que conhecesse Vorcaro após o nome do senador ser associado ao caso Master.
Os novos registros, contudo, mostram que os dois mantinham comunicação direta e uma relação pessoal que ia além de contatos institucionais. Em algumas das conversas, eles utilizam expressões de intimidade e tratam de assuntos em momentos sensíveis para o Banco Master.
Procurado pela Folha após a divulgação das mensagens, Alcolumbre não havia apresentado resposta até a publicação da reportagem.
Vorcaro citou suposto pagamento de US$ 30 milhões
A relação entre os dois já havia provocado repercussão meses antes.
Em junho, a Veja revelou que uma proposta de colaboração premiada apresentada pela defesa de Daniel Vorcaro à Polícia Federal incluía a acusação de que US$ 30 milhões teriam sido repassados a Davi Alcolumbre em uma conta no exterior.
De acordo com a revista, Vorcaro se oferecia para detalhar o caminho do dinheiro e associava o suposto pagamento a serviços prestados pelo político em favor de interesses do banco. A proposta de colaboração não foi aceita pelas autoridades.
Alcolumbre negou a acusação e classificou as informações como falsas.
A divulgação das conversas agora acrescenta um elemento que não era conhecido publicamente quando a acusação surgiu: a existência de uma relação próxima e frequente entre o senador e o então proprietário do Banco Master.
R$ 400 milhões da previdência do Amapá
Enquanto as mensagens colocam novamente Alcolumbre no centro das discussões sobre o caso, no Amapá outra frente envolve diretamente o patrimônio previdenciário dos servidores estaduais.
A Amprev destinou R$ 400 milhões ao Banco Master em julho de 2024, por meio da aquisição de letras financeiras. De acordo com a investigação da Polícia Federal relatada pela Folha, os aportes ocorreram em um intervalo inferior a 20 dias.
O volume é relevante porque se trata de dinheiro destinado ao pagamento futuro de aposentadorias e pensões dos servidores públicos estaduais. O Governo do Amapá na gestão Clécio Luís foi o segundo maior investidor letras financeiras do Banco Master, perdendo apenas para o estado do Rio de Janeiro.
PF aponta alertas ignorados
Segundo a Folha, a Polícia Federal apontou que o comitê responsável pelos investimentos teria ignorado alertas internos e riscos existentes antes da destinação dos recursos ao Master. A investigação também menciona ausência de documentação técnica complementar antes da aprovação das operações.
Outra reportagem da Folha mostrou que integrantes da estrutura de decisão da Amprev haviam manifestado ressalvas sobre os riscos do banco antes de posteriormente participarem da aprovação de novos aportes.
As circunstâncias em que essas decisões foram tomadas fazem parte das apurações e ainda não significam, por si só, a responsabilização criminal dos envolvidos.
Clécio, Alcolumbre e o Master
Os episódios colocam personagens centrais da política amapaense em diferentes pontos do caso.
No governo de Clécio Luís, a previdência estadual destinou R$ 400 milhões ao banco de Daniel Vorcaro. O investimento foi conduzido pela Amprev, então presidida por Jocildo Lemos, apontado pela Folha como uma indicação política de Davi Alcolumbre.
No outro extremo dessa relação, o próprio Alcolumbre aparece nas mensagens apreendidas do celular de Vorcaro mantendo interlocução pessoal com o banqueiro e já havia sido citado por ele na proposta de colaboração que mencionava um suposto pagamento de US$ 30 milhões.
O que as sucessivas revelações fazem é reunir, em uma mesma investigação de alcance nacional, fatos que antes apareciam de forma fragmentada: o dinheiro da previdência dos servidores do Amapá investido no Master, a influência política sobre a direção da Amprev, a acusação feita por Vorcaro contra Alcolumbre e, agora, a comprovação documental de que banqueiro e senador mantinham uma relação próxima.
Com a Polícia Federal avançando sobre as circunstâncias dos investimentos e novas mensagens do celular de Vorcaro vindo a público, o caso permanece aberto a novos desdobramentos. Para o Amapá, a questão central continua sendo dupla: como R$ 400 milhões da previdência estadual foram parar no Banco Master e qual era a extensão das relações políticas mantidas pelo banqueiro com figuras que exerciam influência direta no estado e em Brasília














