Política

Áudios revelam articulações por empregos nas gestões de Pedro DaLua e Clécio Luís envolvendo liderança de facção

Portal 1 Norte teve acesso a gravações e documentos da investigação da Polícia Civil que apontam intermediação de contratos públicos, pedidos de vagas e articulações políticas; vereador eleito vice-presidente na chapa de DaLua foi alvo da Operação Cavalo de Troia

Áudios e documentos de uma investigação da Polícia Civil do Amapá revelam suspeitas de utilização de empregos e contratos públicos como instrumentos de favorecimento político a pessoas ligadas à organização criminosa Família Terror do Amapá (FTA). As conversas envolvem articulações na Prefeitura de Macapá e em órgãos vinculados ao Governo do Estado, administrados, respectivamente, por Pedro DaLua durante sua passagem pelo Executivo municipal e por Clécio Luís.

O Portal 1 Norte teve acesso aos áudios e ao conteúdo da investigação, que integra o processo judicial nº 6068584-48.2026.8.03.0001, relacionado à Operação Cavalo de Troia, deflagrada na quinta-feira (15) pela Divisão de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco).

No centro da investigação está Valdilene Viegas da Silva, apontada pela polícia como liderança operacional da facção Família Terror do Amapá (FTA). Segundo os investigadores, ela teria assumido funções de coordenação logística e financeira da organização após a prisão de seu companheiro, Gilberto Rebelo de Sousa, conhecido como Betinho.

As gravações mostram pedidos de empregos, encaminhamento de currículos e contatos com agentes políticos, principalmente o vereador Daniel Theodoro Petraglia e o suplente de vereador Odilson Serra Nunes. O nome do senador Randolfe Rodrigues também aparece em uma das conversas, mencionado pela própria investigada.

Embora as evidências apontem possíveis irregularidades na intermediação de empregos, os documentos analisados não demonstram participação direta de Pedro DaLua, Clécio Luís ou Randolfe Rodrigues nas práticas criminosas investigadas.

“A gente não tava ainda contando que ia assumir a prefeitura”

Uma das gravações obtidas pelo Portal 1 Norte chama atenção pela referência direta à mudança de comando da Prefeitura de Macapá, após Pedro DaLua assumir interinamente o Executivo municipal.

No áudio, atribuído pela investigação a Odilson Serra Nunes, o político conversa com Valdilene sobre a situação de seu contrato de trabalho e marca um encontro na sede da Prefeitura.

“Não, não, minha amiga. Não é questão de levar um não. É porque a gente não tava ainda contando que ia assumir a prefeitura e tá sendo uma correria mesmo. Mas bora fazer o seguinte: passa aqui comigo na prefeitura, quatro da tarde. E teu contrato tá de boa lá, né? Tá de boa?”, afirma.

A declaração chama atenção especialmente pelo uso da expressão “não tava ainda contando”. A maneira como Odilson se refere à chegada do grupo à Prefeitura sugere que a possibilidade de assumir o comando municipal já estava no horizonte político dos envolvidos, mas que a mudança ocorreu antes do momento em que esperavam.

O diálogo foi registrado em março de 2026, após o afastamento de Antônio Furlan da Prefeitura e a chegada de Pedro DaLua ao Executivo municipal.

No relatório da investigação, a Draco destaca que Odilson utilizava sua proximidade com agentes políticos para demonstrar influência e prestígio. Os investigadores mencionam, inclusive, o envio de fotografias de reuniões com parlamentares, entre eles o próprio Pedro DaLua, então presidente da Câmara Municipal.

A Polícia Civil interpreta essas manifestações como parte de uma estratégia de demonstração de influência e manutenção do apoio político de Valdilene, apontada como uma importante articuladora de pessoas ligadas ao grupo.

A referência à chegada à Prefeitura, associada à preocupação de Odilson com a manutenção do contrato de Valdilene, também evidencia o acesso que ele afirmava possuir à estrutura administrativa. O conteúdo, entretanto, não comprova que Pedro DaLua tivesse conhecimento das solicitações ou participasse de eventuais irregularidades.

Liderança da facção relata contratação na Prefeitura

Em outra gravação, Valdilene afirma que conseguiu um contrato como assistente social na Prefeitura de Macapá por intermédio de Odilson Serra Nunes.

Durante conversa com um conhecido identificado como Nito, ela relata que já trabalhava havia aproximadamente 15 dias e que pretendia conseguir outro contrato na área da saúde, desta vez vinculado ao Governo do Estado.

“Eu consegui um contrato, Nito, pra mim. Eu não, né? Seu Odilson conseguiu na prefeitura, na assistência social. Vai fazer quinze dias que eu tô indo. Aí o Daniel ficou de arrumar outro pra mim na saúde, só que já pelo governo, né? Eu acho que daqui com duas semanas já começa. Aí eu vou ficar de manhã em um e no outro à tarde”, afirma.

A conversa foi registrada em junho de 2025, antes de Pedro DaLua assumir temporariamente a Prefeitura.

Conforme a Draco, Valdilene exercia atividades na Unidade Básica de Saúde (UBS) Macapaba. A investigação também aponta suspeitas de irregularidades na frequência da servidora, que teria relatado ausências ao trabalho sem justificativa, apesar de continuar recebendo remuneração.

Vagas na UEAP e contratos no Governo Clécio

As gravações também revelam articulações para obtenção de empregos em instituições vinculadas ao Governo do Estado, na administração de Clécio Luís.

Em um dos áudios, atribuído a Odilson Serra Nunes, o político afirma ter conseguido uma vaga de serviços gerais na Universidade do Estado do Amapá (UEAP) e solicita a indicação de uma pessoa para ocupar o posto.

“Já arrumei uma vaga de serviços gerais também. É lá na UEAP. A pessoa vai? Uma. É uma vaga. Posso dar uma vaga pra outra depois. Escolha o currículo e mande pra mim aí qual é que você vai querer”, declara.

A conversa ocorreu em junho de 2025. Segundo o relatório policial, Valdilene encaminhou currículos de familiares e conhecidos, enquanto os investigadores identificaram outros diálogos envolvendo possíveis oportunidades de emprego em empresas terceirizadas.

Entre as empresas mencionadas nos documentos estão Alpha, Apollo e IBRADEP, citadas em conversas sobre indicações para postos de trabalho.

A investigação levanta suspeitas de interferência política nas contratações, embora ainda seja necessário confirmar quais vagas foram efetivamente preenchidas e quem autorizou as admissões.

Randolfe é citado por liderança da facção em conversa sobre empregos

O senador Randolfe Rodrigues também é mencionado em uma das gravações analisadas pela Polícia Civil.

Em conversa com uma mulher identificada como Madalena Bentes, registrada em novembro de 2025, Valdilene orienta a interlocutora a procurar candidatos para tentar conseguir emprego para a filha, recém-formada na área de enfermagem.

“Ela tem que se chegar com esses candidatos. Olha, eu tenho dois contratos. Eu tô indo agora, vim buscar uma amiga minha pra apresentar ela pro senador Randolfe. Se tu tivesse uma quantidade de gente pra ti apresentar pra ele”, afirma.

Em outro trecho, Valdilene explica que costuma buscar empregos em vez de solicitar dinheiro a candidatos.

“Eu peço emprego, mana, olha eu tenho dois empregos”, declara.

Para a Polícia Civil, as conversas indicam uma possível dinâmica de troca de apoio político por oportunidades de trabalho e benefícios.

A referência a Randolfe, contudo, é uma declaração unilateral da investigada. O material apresentado não comprova encontro com o senador, concessão de empregos por sua intervenção ou conhecimento dele sobre a ligação de Valdilene com a organização criminosa.

Vereador é apontado como interlocutor

O vereador Daniel Theodoro Petraglia, apontado pela investigação como um dos principais interlocutores de Valdilene na busca por empregos, foi alvo da Operação Cavalo de Troia, deflagrada na quinta-feira (15).

A operação resultou no afastamento cautelar de Daniel do exercício do mandato, por determinação judicial, no âmbito da investigação sobre suspeitas de favorecimento à facção FTA.

Os investigadores identificaram conversas nas quais Valdilene cobra do vereador vagas de emprego para ela e para outras pessoas. Entre os beneficiários pretendidos aparecem familiares da investigada, incluindo seu filho Paulo Kayky e sua sobrinha Carla Maria Viegas de Souza.

Em uma das gravações, Valdilene relata que Daniel teria prometido procurar uma pessoa identificada como Djalma para conseguir uma contratação.

“Hoje eu liguei pro nosso patrãozinho, nosso vereador. Lembra ele, Cris? Ele falou que ele ia falar com o Djalma, pra arrumar minha vaga”, afirma.

A Draco trabalha com a hipótese de que a pessoa mencionada seja Dejalma do Espírito Santo, ligado ao Solidariedade e ex-secretário estadual de Mobilização Social, mas a identificação não está definitivamente confirmada.

O relatório policial também aponta que Valdilene encaminhava currículos ao grupo político de Daniel e solicitava vagas em empresas prestadoras de serviços.

Segundo os investigadores, as conversas sugerem que a busca por empregos estava associada à expectativa de mobilização e apoio eleitoral em benefício dos agentes políticos envolvidos.

Daniel foi eleito primeiro vice-presidente da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Macapá para o biênio 2027–2028, integrando a chapa encabeçada por Pedro DaLua. Daniel integrava a composição como primeiro vice-presidente, ao lado de DaLua, escolhido presidente, e Margleide Alfaia, eleita segunda vice-presidente.

Polícia aponta possível troca de apoio político por empregos e benefícios

A investigação teve como ponto de partida a análise de dados extraídos do aparelho celular de Valdilene, apreendido em uma operação anterior.

De acordo com os relatórios da Draco, as mensagens revelam indícios de uma relação de reciprocidade entre a investigada e agentes políticos.

Além das solicitações de empregos, foram identificados pedidos de cestas básicas, passagens aéreas, intermediação de atendimentos médicos e outros benefícios.

Os investigadores suspeitam que Valdilene utilizava sua capacidade de mobilização de pessoas para oferecer apoio político, enquanto buscava vantagens e oportunidades de trabalho para si, familiares e conhecidos.

A Polícia Civil também investiga possíveis favorecimentos no sistema penitenciário em benefício de Gilberto Rebelo de Sousa, companheiro de Valdilene e apontado como liderança da FTA.

Contratos públicos e fiscalização entram no centro das suspeitas

O conteúdo da investigação levanta questionamentos sobre os mecanismos de contratação e fiscalização de trabalhadores na Prefeitura de Macapá, no Governo do Amapá e em empresas prestadoras de serviços à administração pública.

Entre os pontos ainda pendentes de esclarecimento estão os critérios utilizados para selecionar trabalhadores, a eventual participação de intermediários políticos e a efetiva prestação dos serviços contratados.

Também será necessário verificar se as indicações mencionadas nas conversas resultaram em contratações de integrantes da organização criminosa, familiares ou outros apoiadores políticos.

As suspeitas abrangem diferentes períodos administrativos, incluindo contratações municipais mencionadas antes da passagem de Pedro DaLua pela Prefeitura e conversas relacionadas a órgãos da administração estadual durante a gestão Clécio Luís.

Os fatos continuam sujeitos à apuração judicial, e os investigados têm direito à ampla defesa e ao contraditório.

Confira os audios:

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