Indicado por Alcolumbre e nomeado por Clécio, ex-presidente da Amprev mentiu sobre cargo para receber R$ 10 milhões do governo, revela Folha

Jocildo Lemos declarou que não ocupava mais a presidência da previdência estadual ao solicitar recursos para o Carnaval; aliado do senador também é investigado pela aplicação de R$ 400 milhões no Banco Master
Uma reportagem da Folha de S.Paulo, publicada nesta quarta-feira (21), revela que Jocildo Silva Lemos, ex-presidente da Amapá Previdência (Amprev), indicado pelo senador Davi Alcolumbre (União Brasil) e nomeado pelo governador Clécio Luís (União Brasil), apresentou informações falsas sobre o cargo que ocupava para conseguir um patrocínio de R$ 10 milhões do Governo do Amapá destinado ao Carnaval de 2026.
Segundo a investigação do jornalista Vinicius Sassine, Jocildo declarou à Secretaria de Estado do Turismo que era ex-presidente da Amprev, embora continuasse exercendo a função. Na época, ele também presidia a Liga Independente das Escolas de Samba do Amapá (Liesap), entidade responsável pela organização dos desfiles carnavalescos em Macapá e beneficiária dos recursos públicos.
A revelação amplia os questionamentos sobre a atuação do ex-dirigente, que já é investigado pela Polícia Federal por seu envolvimento na aplicação de R$ 400 milhões dos recursos previdenciários dos servidores estaduais em letras financeiras do Banco Master.
O Ministério Público do Amapá também instaurou um inquérito civil para investigar suspeitas de improbidade administrativa e conflito de interesses relacionadas à atuação simultânea de Jocildo nas duas instituições.
Documentos contradizem declaração apresentada ao governo
De acordo com a Folha, a proposta de patrocínio de R$ 10 milhões foi apresentada ao governo estadual em 25 de junho de 2025. Nos documentos, Jocildo afirmou que não ocupava mais a presidência da Amprev.
A declaração tinha relevância jurídica porque a legislação impede a celebração de determinadas parcerias entre o poder público e organizações da sociedade civil dirigidas por pessoas que também ocupem cargos de direção em órgãos da mesma esfera governamental.
Jocildo chegou a declarar que a Liesap não possuía, entre seus dirigentes, representantes de órgãos ou entidades da administração pública estadual.
Entretanto, documentos oficiais demonstram que ele continuava à frente da previdência estadual. No próprio dia 25 de junho, o Diário Oficial do Amapá registrava Jocildo como presidente da Amprev.
A situação é reforçada por atas de reuniões da previdência estadual. Em 26 de junho, um dia depois de apresentar o pedido de patrocínio, Jocildo presidiu uma reunião do Conselho Estadual de Previdência, na qual foram discutidos justamente os investimentos realizados no Banco Master.
O contraste entre as informações prestadas à Secretaria de Turismo e os registros oficiais passou a integrar os questionamentos sobre a regularidade do repasse.
Governo Clécio aprovou R$ 10 milhões em sete dias
Apesar da declaração incompatível com os registros oficiais, o pedido de patrocínio avançou na estrutura administrativa do governo de Clécio Luís.
A proposta foi apresentada em 25 de junho de 2025 e recebeu aprovação unânime do Comitê de Patrocínio do Governo do Amapá em 2 de julho, apenas sete dias depois.
O colegiado responsável pela decisão era formado por sete secretários estaduais.
O contrato foi assinado em 31 de julho pela então secretária de Turismo, Syntia Lamarão, representando o governo estadual, e por Jocildo Lemos, na condição de presidente da Liesap.
Outro aspecto destacado pela Folha diz respeito à comprovação dos custos do evento. Durante a análise da proposta, Jocildo foi solicitado a apresentar cotações de mercado que justificassem os valores pretendidos.
O dirigente argumentou que uma parceria anterior havia utilizado estimativas percentuais para despesas com fantasias, alegorias e mão de obra. A justificativa foi aceita, e os R$ 10 milhões foram liberados sem a apresentação de cotações específicas.
Os desfiles foram realizados, e a prestação de contas do patrocínio acabou aprovada pelo próprio governo estadual.
Ligação com Alcolumbre e escândalo do Banco Master
A reportagem também destaca a relação política entre Jocildo Lemos, Davi Alcolumbre e Clécio Luís.
O ex-presidente da Amprev foi indicado para comandar a previdência estadual pelo senador Davi Alcolumbre, de quem já havia sido tesoureiro de campanha. A nomeação foi realizada pelo governador Clécio Luís.
Durante sua gestão, a Amprev destinou R$ 400 milhões a letras financeiras do Banco Master, instituição envolvida em investigações sobre irregularidades no sistema financeiro.
Segundo a Polícia Federal, Jocildo teve papel central na condução de reuniões realizadas em 2024 que resultaram na validação das aplicações financeiras.
O ex-dirigente deixou a presidência da Amprev em fevereiro de 2026, após uma operação da PF que cumpriu mandados de busca em endereços relacionados a gestores envolvidos nas decisões sobre os investimentos.
Mesmo depois de deixar a previdência estadual, Jocildo permaneceu à frente da Liesap.
A investigação sobre os aportes no Banco Master é distinta da apuração sobre os repasses ao Carnaval, embora as duas envolvam a atuação do mesmo gestor.
Liesap recebeu R$ 22,5 milhões em dois carnavais
A Folha identificou que a Liesap recebeu R$ 22,5 milhões em recursos públicos destinados aos carnavais de 2025 e 2026.
Os valores incluíram transferências do Governo do Amapá e emendas parlamentares de cinco deputados estaduais. Parte dos recursos foi posteriormente repassada às escolas de samba.
O senador Davi Alcolumbre também aparece nas articulações políticas relacionadas ao financiamento dos desfiles.
Segundo a reportagem, o próprio governo estadual divulgou a participação do parlamentar na intermediação de recursos para a entidade. A imagem e a identificação política de Alcolumbre também foram utilizadas em materiais de divulgação da liga.
Outro dado identificado pela investigação é a existência de quatro pessoas que exerceram funções na Amprev e na Liesap.
Entre elas estão dois gestores que foram alvos da operação da Polícia Federal relacionada ao Banco Master.
A reportagem também menciona um ex-integrante da estrutura de apoio de Alcolumbre que atuou na Amprev e aparece como responsável por conta bancária da Liesap, além de um advogado que trabalhou nas duas instituições.
A vice-presidência da liga é ocupada por Felipe Edson Pinto, conhecido como Felipe Show, eleito deputado federal pelo União Brasil nas eleições deste ano.
Governo nega conflito de interesses; Alcolumbre diz que não administra entidade
Procurado pela Folha, o Governo do Amapá negou a existência de conflito de interesses na liberação dos recursos.
A administração estadual argumentou que o convênio foi celebrado com a Liesap, e não com a Amprev, o que, segundo o governo, impediria uma interferência direta do dirigente no repasse.
O governo também sustentou que a destinação do dinheiro respeitou os critérios técnicos e legais aplicáveis.
A assessoria de Davi Alcolumbre, por sua vez, afirmou que o senador contribuiu para a retomada dos desfiles por meio de articulações institucionais, mas negou qualquer participação na administração financeira da Liesap ou na escolha de seus dirigentes.
Jocildo Lemos e a Liesap não responderam aos questionamentos encaminhados pela Folha em 6 de outubro.
A nova revelação acrescenta um capítulo às investigações que envolvem a gestão dos recursos previdenciários do Amapá e os vínculos políticos de dirigentes nomeados durante o governo Clécio Luís.
Embora as apurações ainda não representem condenação dos envolvidos, os documentos divulgados levantam questionamentos sobre os controles administrativos utilizados para autorizar repasses milionários a entidades privadas e sobre a responsabilidade dos agentes públicos encarregados de verificar a legalidade dessas operações.



