Radicado no Amapá, quadrinista Tieê Santos leva história de resistência indígena ao Festival Internacional de Quadrinhos

HQ Ajuricaba, produzida por artistas amazônicos e premiada em festivais nacionais, ganha nova edição pela Conrad, com distribuição para todo o Brasil
A história de resistência dos povos indígenas da Amazônia está ganhando novos leitores por meio dos quadrinhos. Radicado no Amapá há 12 anos, o ilustrador e quadrinista Tieê Santos se prepara para participar do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (FIQ 2026), que será realizado de 4 a 8 de novembro, com uma nova edição da HQ Ajuricaba, obra que resgata a trajetória de um dos principais líderes indígenas da resistência à colonização portuguesa na região Norte.
Natural de Manaus, Tieê vive em Macapá desde 2014, quando se mudou para a capital amapaense após a esposa assumir uma oportunidade profissional. Sua ligação com o desenho começou ainda na infância, mas foi na publicidade que desenvolveu boa parte da experiência como ilustrador, trabalhando com campanhas de varejo, comunicação corporativa, cartilhas e materiais educativos. Há mais de dez anos, atua como ilustrador freelancer.
A HQ Ajuricaba nasceu em 2018, a partir de um edital da Prefeitura de Manaus. O projeto foi idealizado pelo roteirista Ademar Vieira, que convidou Jucylande Jr. para os desenhos e Tieê Santos para a arte-final. A equipe dedicou cerca de dois anos à pesquisa e à produção, reunindo informações históricas e antropológicas sobre o personagem.
A publicação teve duas tiragens independentes pelo Estúdio Black Eye, ambas esgotadas. Agora, a parceria com a editora Conrad permitirá ampliar a circulação da obra, com distribuição nacional.
“Essa nova edição representa a consolidação desse trabalho. Agora, com a Conrad, teremos uma distribuição nacional mais ampla, chegando às livrarias de todo o Brasil e tornando a obra mais acessível ao público”, destaca Tieê.
A história de Ajuricaba
Mais do que apresentar um personagem histórico, a HQ busca recuperar a memória de uma liderança indígena que, segundo Tieê, ainda é pouco conhecida fora do Amazonas.
Ajuricaba liderou a resistência contra o domínio português na região do Rio Negro, articulando uma aliança entre diferentes povos indígenas, inclusive grupos que mantinham rivalidades históricas. Sua trajetória se tornou símbolo da resistência à colonização na Amazônia.
“Durante muito tempo, Ajuricaba foi tratado no imaginário popular quase como um personagem folclórico, aparecendo em poemas, músicas e narrativas que frequentemente misturavam sua história com lendas amazônicas. Mas Ajuricaba realmente existiu”, explica o quadrinista.
Para o artista, a importância histórica dessa liderança pode ser comparada à de Zumbi dos Palmares, pela capacidade de mobilização e resistência.
“Nossa intenção foi justamente utilizar os quadrinhos, uma linguagem da cultura pop, para tornar acessível essa história tão importante para a memória indígena, amazônica e brasileira”, afirma.
Reconhecimento nacional
A trajetória da HQ já rendeu importantes reconhecimentos. Entre eles estão indicações ao Prêmio Jabuti de 2021, na categoria Melhor História em Quadrinhos, e ao HQ Mix, na categoria de Melhor Arte-Finalista. O trabalho também foi reconhecido no Troféu Angelo Agostini e no Prêmio Regional Mapinguari de Quadrinhos, no qual recebeu premiações nas categorias Melhor Quadrinho, Melhor Arte-Finalista e Melhor Roteiro, em 2022.
Para Tieê, participar de eventos nacionais representa não apenas uma oportunidade profissional, mas também a possibilidade de mostrar ao país a qualidade da produção artística amazônica.
As premiações, segundo ele, trouxeram mais confiança para continuar produzindo e representando a região em encontros culturais.
“Desde então, estamos presentes em eventos nacionais e regionais levando nosso trabalho e o orgulho de contar a nossa história, mostrando que nós, amazônidas, temos sim muito o que mostrar e contar”, ressalta.
Os desafios de produzir quadrinhos na Amazônia
Apesar dos avanços, Tieê considera que os artistas do Norte ainda enfrentam obstáculos para conquistar espaço no mercado editorial brasileiro.
A concentração das editoras e dos grandes eventos no Sudeste, as distâncias geográficas e a oferta limitada de oportunidades de formação e capacitação dificultam o desenvolvimento de novos projetos e a visibilidade dos profissionais da região.
Por outro lado, o ilustrador reconhece que os editais de incentivo à cultura e as plataformas digitais vêm contribuindo para ampliar a produção independente.
“Ainda existe uma desigualdade de oportunidades entre quem produz no Norte e quem está próximo dos grandes centros editoriais, mas os artistas amazônicos vêm conquistando cada vez mais espaço”, observa.
Para o quadrinista, a nova edição de Ajuricaba representa mais um passo nesse processo: uma história nascida na Amazônia, produzida por artistas da região e que agora terá a oportunidade de alcançar leitores em todo o país.
FIQ 2026
A 13ª edição do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte será realizada entre 4 e 8 de novembro, no Minascentro, com entrada gratuita. Considerado o maior evento do gênero na América Latina, o festival terá lançamentos, exposições, oficinas, debates e encontros entre artistas e leitores.
Tieê Santos e Ademar Vieira estarão juntos na mesa 02, representando o Estúdio Black Eye e apresentando a nova edição de Ajuricaba.



