Mazagão Velho celebrou nesta sexta-feira (23) 256 anos de fundação com uma programação marcada pela fé, pela memória e pela riqueza cultural do povo mazaganense. A vila histórica que deu origem ao município de Mazagão é conhecida como “a cidade que atravessou o Atlântico”, e, hoje, pôde contar aos visitantes e às novas gerações um pouco dessa história que é única e surpreendente.
Fundada em 1770 pela Coroa Portuguesa, Mazagão Velho nasceu da travessia de cerca de 360 famílias que deixaram o Norte da África e cruzaram o Oceano Atlântico para se instalar na Amazônia, dando origem à vila que, mais de dois séculos depois, segue preservando suas tradições. A história de resistência e fé é revivida ano após ano nas celebrações religiosas e culturais que unem moradores e visitantes.
As comemorações do aniversário começaram ainda de madrugada, com a alvorada às 5h, seguida da corrida de 5 quilômetros, com largada na comunidade do Ajudante. Às 7h, um dos momentos mais emocionantes da programação tomou as ruas da vila: o cortejo com o transporte dos restos mortais dos primeiros habitantes de Mazagão Velho, retirados do Mausoléu e conduzidos até o local da celebração religiosa.
Entre os participantes do cortejo esteve Jó Barreto, morador da vila que, neste ano, interpretou a figura de São Tiago, santo que tem forte ligação com o povo mazaganense. Ele foi um dos responsáveis por conduzir as urnas com as relíquias mortais durante a procissão, ato carregado de simbolismo e memória. Para Jó, representar São Tiago é uma honra e um sentimento compartilhado por muitos moradores. “É um momento de muita gratidão e emoção. Representar São Tiago é um sonho de muitos homens daqui, porque ele simboliza a fé, a luta e a tradição do nosso povo”, afirmou.

Em seguida, a comunidade se reuniu para a Missa Campal, celebrada em frente à igreja da vila, fortalecendo o caráter religioso da data. Entre os fiéis estava Maria de Anunciação Barreto, de 77 anos, uma das moradoras mais antigas de Mazagão Velho, cuja trajetória de vida se confunde com a história da comunidade.
“Nasci e me criei aqui, acompanho essas festas desde criança. Mesmo com muitos filhos morando fora, quando tem festa todos voltam. Aqui eu casei e criei 11 filhos, e todos estão ligados a essa terra. Meu pai sempre me contou a história e os desafios enfrentados pela nossa comunidade, e hoje passamos essas histórias para as gerações que estão chegando. Mazagão Velho é um milagre”, contou.
Logo após a missa, a memória histórica ganhou forma e movimento com a representação da chegada dos primeiros mazaganistas pelo rio Mutuacá. Em um pequeno barco, crianças e adultos encenaram a travessia dos fundadores, levando bandeiras que simbolizavam Portugal e Marrocos. A cena emocionou o público ao retratar o início da formação da vila.

A encenação contou com a participação das crianças do Grupo Raiz do Marabaixo Infantil, que atua há cerca de 20 anos na preservação das manifestações culturais da comunidade. A coordenadora Alice Reis destaca que envolver as novas gerações é fundamental para manter viva a tradição. “O nosso trabalho é juntar as crianças para perpetuar a cultura de Mazagão Velho, para que elas sejam o nosso ontem, o hoje e o nosso amanhã”, ressaltou.
Quem também acompanhou todo o festejo foi Leonardo Videira, de 19 anos, que é caixeiro na Festa de São Tiago, celebrada todo ano no mês de julho. No festejo, o caixeiro é responsável por anunciar os momentos sagrados e manter viva a tradição. Leonardo, que iniciou a função ainda jovem, fala da importância do compromisso da juventude com a cultura local. “Mazagão Velho é o berço da cultura do Amapá. Não podemos deixar a nossa cultura morrer, porque ela é como uma veia: se parar de bater, tudo para”, disse.
A programação da manhã seguiu com a execução dos hinos Nacional, do Amapá e de Mazagão, a salva de tiros realizada pelo Exército Brasileiro e o corte do bolo comemorativo, marcando oficialmente os 256 anos da vila.
Durante a tarde e a noite, os festejos continuam com diversas atrações culturais, reunindo música, dança e manifestações tradicionais. Ao completar mais um ano de história, Mazagão Velho reafirma que sua maior riqueza está na união entre fé, tradição e cultura, mantidas vivas pelo povo mazaganense ao longo de mais de dois séculos.











