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BR-156 vira destaque nacional por quase um século de obras, lama e denúncias de corrupção no Amapá

Reportagem do Estadão expõe problemas históricos da rodovia, que continua sem pavimentação completa e ganha importância estratégica com a perspectiva de exploração de petróleo na Margem Equatorial

A BR-156, uma das principais rodovias do Amapá, voltou a ganhar destaque nacional nesta terça-feira (3). Uma reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo (Estadão) expõe a situação de uma estrada idealizada há quase 100 anos, mas que ainda enfrenta problemas de pavimentação, lama, poeira e denúncias de irregularidades na aplicação de recursos públicos.

Com o título “BR-156: proposta por Rondon há 99 anos, ‘rodovia do petróleo’ tem poeira, lama e corrupção no Amapá”, a publicação resgata a origem histórica da estrada e mostra como uma obra fundamental para a integração do estado atravessou gerações sem ser concluída. O problema ganha uma nova dimensão diante das perspectivas econômicas relacionadas à exploração de petróleo na Margem Equatorial.

A reportagem lembra que, em junho de 1927, após chegar à região de Clevelândia, no atual município de Oiapoque, o general Cândido Rondon defendeu a construção de uma ligação terrestre entre Macapá e a fronteira com a Guiana Francesa. A proposta tinha importância estratégica para a ocupação territorial, a segurança nacional e o desenvolvimento da região.

Passados 99 anos, o projeto continua incompleto. A BR-156, que possui aproximadamente 821 quilômetros de extensão e liga o extremo norte ao sul do Amapá, permanece com segmentos sem asfalto, impondo dificuldades ao transporte de passageiros, mercadorias e serviços.

Mais de R$ 1 bilhão em contratos e nenhuma data definitiva

Um dos pontos destacados na repercussão da reportagem do Estadão é o volume de recursos envolvidos nas obras. Segundo o levantamento, existem mais de R$ 1 bilhão em contratos de pavimentação, mas ainda não há uma data definitiva para a conclusão integral da rodovia.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) atribui parte das dificuldades a condicionantes administrativas, técnicas, ambientais e indígenas que interferem no andamento dos serviços.

Dados oficiais mostram que existem frentes de trabalho em diferentes segmentos. No Tronco Norte, entre Macapá e Oiapoque, o DNIT informou investimentos superiores a R$ 278 milhões para a pavimentação de 56 quilômetros. No Tronco Sul, entre Macapá e Laranjal do Jari, outro contrato prevê mais de R$ 158 milhões para obras em 61,1 quilômetros, em parceria com o Exército Brasileiro.

Em dezembro de 2025, o órgão também anunciou o avanço da licitação de mais 62 quilômetros no Tronco Sul, com orçamento estimado em R$ 380 milhões. Apesar dos investimentos e das obras em andamento, a conclusão de toda a estrada permanece como uma demanda histórica da população amapaense.

Corrupção também faz parte da história da rodovia

Além dos problemas estruturais, a BR-156 acumula um histórico de investigações e irregularidades identificadas por órgãos de fiscalização.

Em 2015, o Tribunal de Contas da União (TCU) divulgou resultados de uma auditoria nas obras do trecho entre Ferreira Gomes e Oiapoque. A fiscalização identificou irregularidades contratuais e deficiências em projetos de engenharia, incluindo problemas em quantitativos e composições de serviços.

Mais recentemente, em julho de 2025, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram a Operação Route 156, destinada a investigar suspeitas de fraudes em licitações, lavagem de dinheiro e organização criminosa relacionadas a contratos de manutenção rodoviária no Amapá.

Segundo a CGU, as empresas investigadas receberam aproximadamente R$ 32 milhões entre 2024 e 2025. O valor corresponde aos pagamentos identificados no âmbito da investigação, não a um montante comprovadamente desviado.

Os episódios reforçam a necessidade de fiscalização sobre os contratos e de transparência na execução dos investimentos destinados à rodovia.

Petróleo amplia importância estratégica da BR-156

A perspectiva de desenvolvimento de uma indústria de petróleo na costa do Amapá acrescenta uma nova responsabilidade à infraestrutura rodoviária do estado.

Apresentada como uma possível “rodovia do petróleo”, a BR-156 poderá desempenhar papel importante no transporte de equipamentos, insumos, trabalhadores e serviços associados à futura cadeia produtiva de óleo e gás.

A precariedade de parte da estrada, entretanto, representa um desafio logístico para a atração de investimentos e o desenvolvimento de atividades econômicas de maior porte.

O problema também ultrapassa o setor petrolífero. A BR-156 é fundamental para o abastecimento de municípios, o escoamento da produção regional, o turismo e a integração comercial com a Guiana Francesa, território ultramarino francês na América do Sul.

Enquanto o Amapá se prepara para aproveitar possíveis oportunidades ligadas à Margem Equatorial, a conclusão da rodovia permanece como uma das principais necessidades estruturais do estado.

Uma dívida de quase um século com o Amapá

A repercussão nacional da situação da BR-156 evidencia um contraste que acompanha a história do Amapá: uma rodovia considerada estratégica para o desenvolvimento regional permanece inacabada quase um século depois de sua concepção.

No período chuvoso, os trechos sem pavimentação acumulam lama e atoleiros. Durante a estiagem, a poeira prejudica a visibilidade e as condições de deslocamento. Para quem depende da estrada, essas dificuldades representam custos adicionais, desgaste dos veículos e viagens mais demoradas.

A conclusão da BR-156 deixa de ser apenas uma reivindicação histórica e passa a ter importância ainda maior diante das perspectivas econômicas do estado.

A reportagem do Estadão recoloca a questão em evidência nacional: antes mesmo de consolidar uma nova fronteira de exploração de petróleo, o Amapá ainda precisa resolver um problema de infraestrutura que atravessa quase 100 anos de sua história.

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