Seis anos do apagão: a tragédia que deixou o Amapá no escuro em plena pandemia de Covid-19

Em novembro de 2020, cerca de 660 mil pessoas enfrentaram uma crise energética que durou 21 dias, provocou falta de água, prejuízos ao comércio, protestos e adiamento das eleições em Macapá. Episódio também ficou marcado por declaração polêmica do senador Davi Alcolumbre.
Na noite de 3 de novembro de 2020, o Amapá mergulhou em uma das maiores crises de sua história. Enquanto o mundo enfrentava a pandemia de Covid-19, um incêndio na Subestação Macapá interrompeu o fornecimento de energia elétrica em grande parte do estado. O que inicialmente parecia uma ocorrência pontual se transformou em 21 dias de dificuldades, incertezas e prejuízos para milhares de famílias.
Nesta terça-feira (3), o episódio completa seis anos. A lembrança permanece viva entre os amapaenses que enfrentaram dias sem energia elétrica, água encanada, comunicação e acesso regular a serviços essenciais. A crise também expôs a vulnerabilidade do sistema energético estadual e desencadeou investigações sobre falhas de manutenção, fiscalização e planejamento.
Segundo o Ministério Público Federal (MPF), aproximadamente 660 mil pessoas foram diretamente atingidas pelo apagão, que comprometeu o fornecimento de energia em 13 dos 16 municípios amapaenses, alcançando mais de 90% da população do estado.
A noite em que tudo começou
Era uma terça-feira quando, por volta das 20h48, uma falha na Subestação Macapá, localizada na Zona Norte da capital, provocou um incêndio e o desligamento de equipamentos responsáveis pela transmissão de energia.
A instalação era operada pela Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LMTE), empresa responsável por uma estrutura estratégica para a conexão do Amapá ao Sistema Interligado Nacional.
Dos três transformadores da subestação, um sofreu um curto-circuito, outro foi afetado durante a ocorrência e o terceiro já estava indisponível desde dezembro de 2019. A combinação dessas condições deixou o sistema sem capacidade suficiente para atender à demanda estadual.
O relatório divulgado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), em dezembro de 2020, identificou uma contingência múltipla como fator determinante para a extensão do apagão.
A ausência de equipamentos de reserva em condições operacionais ampliou os efeitos da ocorrência e dificultou o restabelecimento imediato do serviço.
Quatro dias de escuridão e uma rotina de sobrevivência
Os primeiros quatro dias foram os mais críticos. Com a interrupção generalizada do fornecimento de energia, moradores passaram a enfrentar dificuldades para realizar atividades básicas.
Sem eletricidade, sistemas de bombeamento deixaram de funcionar, comprometendo a distribuição de água. Famílias começaram a formar filas para conseguir abastecer baldes, garrafões e outros recipientes.
Nos supermercados, alimentos refrigerados e congelados estragaram. O gelo passou a ser um produto disputado, enquanto comerciantes contabilizavam prejuízos e tentavam preservar mercadorias.
O funcionamento de caixas eletrônicos, serviços de telefonia e internet também foi afetado. Em diversos bairros, a população dependia de velas, lanternas, geradores e da solidariedade de vizinhos para enfrentar as noites.
A situação era ainda mais delicada porque o Amapá vivia, assim como o restante do país, os impactos sanitários e econômicos da pandemia de Covid-19.
As restrições e os cuidados necessários para evitar a transmissão do coronavírus contrastavam com as aglomerações inevitáveis nas filas por água, alimentos e outros produtos essenciais.
Nos hospitais, a crise energética exigiu medidas emergenciais para preservar atendimentos prioritários. Cirurgias eletivas foram suspensas na rede pública, enquanto unidades de saúde precisaram adaptar suas rotinas.
Rodízio de energia e protestos nas ruas
Em 7 de novembro, após reparos em um dos transformadores, o fornecimento começou a ser retomado parcialmente.
A capacidade disponível, porém, era insuficiente para atender simultaneamente todos os consumidores. A solução adotada foi um sistema de rodízio de energia, com horários programados de abastecimento.
Na prática, a medida não funcionou de maneira uniforme. Moradores de bairros periféricos relataram permanecer por períodos superiores aos previstos sem eletricidade, enquanto outras regiões recebiam atendimento mais frequente.
A insatisfação provocou manifestações em Macapá e em outros pontos do estado. Ruas foram bloqueadas, barricadas incendiadas e moradores cobraram respostas das autoridades e das empresas responsáveis pelo setor elétrico.
O Governo Federal reconheceu a situação de emergência no Amapá em 6 de novembro, permitindo o acesso a mecanismos de assistência e recuperação.
A crise também provocou mobilização de equipes técnicas e de estruturas federais para transportar equipamentos, instalar geração emergencial e recuperar a capacidade de abastecimento.
Apagão adiou eleições e provocou declaração polêmica de Davi Alcolumbre
A crise energética também teve consequências políticas. Em Macapá, as eleições municipais de 2020 precisaram ser adiadas por determinação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), diante da instabilidade provocada pelo apagão e dos riscos à segurança dos eleitores.
O primeiro turno, inicialmente previsto para 15 de novembro, foi transferido para 6 de dezembro. O segundo turno ocorreu em 20 de dezembro.
Em meio ao sofrimento da população, uma declaração do então presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), ganhou repercussão nacional. Durante entrevista à rádio Diário FM, em 12 de novembro de 2020, o parlamentar afirmou que seu irmão, Josiel Alcolumbre, candidato à Prefeitura de Macapá, havia sido o maior prejudicado pela crise.
“O maior atingido com esse apagão chama-se Josiel Alcolumbre, que ia ganhar a eleição no primeiro turno”, declarou o senador.
Davi argumentava que o irmão liderava as pesquisas eleitorais antes do apagão e que sua candidatura estava sendo prejudicada pelas críticas dos adversários. Na ocasião, também negou qualquer interferência na decisão da Justiça Eleitoral de adiar a votação.
A declaração repercutiu em um momento em que milhares de amapaenses enfrentavam a falta de energia elétrica, água potável, alimentos e serviços essenciais. A fala acabou se tornando um dos episódios políticos mais lembrados daquela crise.
Apesar das expectativas manifestadas pelo senador, Josiel não venceu a eleição. Ele chegou ao segundo turno, mas foi derrotado por Dr. Furlan (Cidadania), eleito prefeito de Macapá com 55,67% dos votos válidos.
O episódio marcou a disputa municipal de 2020, realizada em condições excepcionais, quando os efeitos da pandemia e do apagão se sobrepuseram à campanha eleitoral.
O fim da crise após 21 dias
Somente na madrugada de 24 de novembro de 2020, após a instalação e energização de um segundo transformador, o Ministério de Minas e Energia anunciou o restabelecimento integral do fornecimento elétrico.
O equipamento havia sido transportado de Laranjal do Jari para reforçar o sistema de Macapá. A operação também contou com geração hidrelétrica e termelétrica emergencial.
Embora o governo tenha anunciado a normalização, moradores ainda relataram interrupções pontuais no abastecimento naquele dia.
O encerramento do rodízio marcou o fim da fase mais grave de uma crise que havia começado três semanas antes.
Investigações apontaram falhas de manutenção e fiscalização
O apagão desencadeou investigações que apontaram problemas estruturais na operação do sistema elétrico.
Em fevereiro de 2021, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) concluiu que falhas de manutenção contribuíram para a ocorrência e aplicou multa de aproximadamente R$ 3,6 milhões à LMTE.
As investigações avançaram nos anos seguintes.
Em fevereiro de 2025, o Ministério Público Federal ajuizou uma ação civil pública para responsabilizar agentes públicos e privados envolvidos na crise. O órgão passou a cobrar indenizações que, somadas, poderiam chegar a quase R$ 70 bilhões.
Entre os réus estão a União, a Aneel, o ONS, a LMTE, a antiga Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA), a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e empresas controladoras.
Segundo o MPF, as apurações identificaram falhas e omissões relacionadas à manutenção dos equipamentos, à segurança operacional, à fiscalização e ao planejamento energético.
O valor de quase R$ 70 bilhões representa um pedido judicial de reparação, e não uma indenização já concedida. A ação foi protocolada na Justiça Federal sob o número 1001396-65.2025.4.01.3100.
Uma tragédia que permanece na memória do Amapá
Seis anos depois, o apagão de 2020 continua sendo lembrado não apenas pela ausência de energia, mas pelas consequências que provocou na vida cotidiana.
Foram dias de alimentos perdidos, estabelecimentos fechados, famílias em busca de água e moradores enfrentando a escuridão enquanto tentavam se proteger de uma doença que havia transformado a rotina do planeta.
Em junho de 2026, o próprio Ministério Público Federal voltou a abordar o episódio com o lançamento do documentário Vidas na Escuridão, reunindo relatos de moradores e comerciantes atingidos pela crise.
A tragédia deixou uma lição sobre a importância da segurança energética, da manutenção preventiva e da existência de estruturas capazes de garantir o funcionamento dos serviços essenciais mesmo diante de grandes falhas.
Para milhares de amapaenses, entretanto, o apagão permanece associado a algo muito mais próximo: a experiência de enfrentar uma crise sem precedentes, em um dos períodos mais difíceis da história recente.
Seis anos depois, a lembrança daqueles 21 dias continua fazendo parte da memória coletiva do Amapá.



