“O povo do Amapá vai te afastar porque não aguenta mais”, diz Furlan a Clécio em debate na TV Amapá
Frente a frente na reta final da eleição, candidatos protagonizaram embates sobre saúde, obras, segurança pública, servidores, Banco Master e influência política de Davi Alcolumbre
“O povo do Amapá vai te afastar porque não aguenta mais.”
A frase de Dr. Furlan (PSD) para o governador Clécio Luís (União Brasil) deu o tom de um dos momentos mais duros do debate promovido pela TV Amapá/Rede Amazônica na noite desta terça-feira (29). A poucos dias do primeiro turno, os dois candidatos ficaram frente a frente em uma série de confrontos sobre saúde, obras públicas, segurança, funcionalismo e as relações políticas do atual governo.
Desde o primeiro bloco, Furlan direcionou as críticas à capacidade de entrega da gestão estadual. Ao responder sobre seu próprio afastamento da Prefeitura de Macapá, classificou o episódio como perseguição política e partiu para o ataque.
“Fui afastado por perseguição política. Você será afastado pelo povo”, afirmou.
Furlan fez questão por diversas vezes de associar politicamente o governador Clécio ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
“O Davi é o seu patrão. O meu patrão é o povo”, declarou.
Saúde vira um dos principais embates
A situação da saúde pública dominou boa parte do primeiro bloco. Furlan questionou a demora na conclusão do Hospital de Emergência (HE) e disse que datas para a entrega da unidade foram anunciadas e posteriormente adiadas.
“Você não conseguiu entregar o HE, que era sua prioridade. Remarcou várias vezes. Entregar obras é uma dificuldade que você tem. Agora diz que vai entregar porque está em campanha”, disse.
O candidato também citou sua passagem pela Prefeitura de Macapá e afirmou ter entregue 36 obras na área da saúde. Relembrou ainda o período da pandemia, quando Clécio era prefeito, para confrontar a atuação administrativa do adversário naquele momento.
Em outro trecho, Furlan enumerou obras estaduais que, segundo ele, ainda não foram concluídas, entre elas intervenções no Aturiá, na Josmar Pinto e no Marco Zero.
Foi quando lançou uma das provocações da noite.
“A obra mais complexa que você entregou foi o comedouro de PVC do Randolfe. É por isso que te chamam de tartaruga cansada”, disparou.
Furlan contrapõe obras de Macapá às entregas estaduais
No bloco sobre empreendedorismo, Clécio apresentou obras e investimentos de sua gestão, incluindo projetos ainda em execução.
Furlan contrapôs a fala destacando intervenções realizadas em Macapá durante sua administração.
“Você em casa sabe quem construiu a nova Macapá”, afirmou, citando projetos como o Parque do Meio do Mundo e o Projeto Orla Viva.
Ao ampliar a crítica para o interior, Furlan mencionou as dificuldades de acesso à Praia do Goiabal e também as condições da estrada que liga Macapá ao Oiapoque, argumentando que problemas de infraestrutura impedem que o potencial turístico do Amapá seja plenamente aproveitado.
Servidor público entra no centro do debate
No tema gestão pública, Furlan destacou a relação de sua administração com os servidores municipais e afirmou que pretende repetir no Estado medidas adotadas em Macapá.
Ele citou a convocação de aprovados em concursos vigentes, incluindo listas da Saúde e da Assistência Social, a realização de concurso para a Guarda Municipal e a aposentadoria de mais de 800 servidores.
Também afirmou que houve forte valorização da Guarda Municipal, com evolução salarial da categoria durante sua gestão, avançando de aproximadamente R$ 2 mil para valores próximos a R$ 10 mil durante sua administração.
Furlan garantiu ainda que, se eleito, pretende convocar as listas de concursos vigentes do Estado e enfrentar demandas acumuladas de diferentes categorias.
“Serei o melhor governador para o servidor público do Amapá”, afirmou.
Segurança pública esquenta confronto
Outro momento de forte embate ocorreu quando os candidatos passaram a discutir segurança pública.
Após Clécio falar dos investimentos que fez na sua gestão, Furlan citou o Anuário Brasileiro de Segurança Pública para atacar os resultados do governo estadual. O levantamento divulgado em 2026 apontou que o Amapá registrou em 2025 a maior taxa de mortes violentas intencionais do país, com 42,5 ocorrências por 100 mil habitantes.
A partir daí, os candidatos trocaram acusações sobre supostas relações de pessoas ligadas às administrações públicas com integrantes de organizações criminosas.
Furlan acusou Clécio de utilizar o tema eleitoralmente e afirmou que o adversário estaria “desesperado” diante da proximidade da votação.
Durante o debate, Furlan anunciou também a publicação, em suas redes sociais, de um vídeo do delegado Estéfano da Silva Santos, titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), no qual o delegado afirma que Furlan não é investigado pela Draco por supostas ligações com facções criminosas e que nenhuma apuração da unidade aponta o candidato como integrante ou aliado de organização criminosa.
Furlan classificou as acusações como uma tentativa de criar uma “cortina de fumaça” para desviar a discussão dos resultados “pífios” do governo estadual.
Beto Louco e show de Roberto Carlos entram no debate
Furlan também foi incisivo ao trazer para o confronto uma proposta de colaboração premiada apresentada à Procuradoria-Geral da República pelo empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco.
Reportagem da revista piauí revelou que, na proposta de delação, Beto Louco afirmou ter desembolsado R$ 2,5 milhões, a pedido de Davi Alcolumbre, para custear o show de Roberto Carlos realizado em Macapá nas festividades de fim de ano de 2024.
Segundo a reportagem, o empresário teria relatado que a tratativa ocorreu em 20 de dezembro daquele ano, durante encontro no gabinete de Alcolumbre, em Brasília. Beto Louco buscava naquele período apoio para tentar reverter uma decisão da Agência Nacional do Petróleo que havia impedido a Copape de produzir combustíveis. A proposta de colaboração, no entanto, não foi aceita pela PGR.
No debate, Furlan utilizou o episódio para pressionar Clécio sobre sua relação política com Alcolumbre.
Amprev, Master e mensagens de Vorcaro
O caso Banco Master também entrou diretamente no confronto.
Furlan citou os cerca de R$ 400 milhões da Amapá Previdência (Amprev) aplicados em letras financeiras do banco comandado por Daniel Vorcaro durante o governo Clécio.
As três aplicações foram aprovadas em julho de 2024 e são investigadas pela Polícia Federal. A PF afirma que os aportes foram realizados apesar de alertas e riscos apontados internamente. Após a liquidação do Master, a Amprev declarou que se considera lesada e busca recuperar os recursos.
Ao abordar o assunto, Furlan relacionou os investimentos da previdência estadual às mensagens recentemente reveladas pela revista Veja entre Vorcaro, Davi Alcolumbre e outros interlocutores.
Obras estruturantes
Na reta final dos confrontos, Furlan voltou ao tema da gestão de Macapá e rebateu críticas de Clécio sobre a realização de obras estruturantes.
“Você mente quando diz que eu não fiz obras estruturantes. As grandes obras estruturantes de Macapá foram feitas por mim”, afirmou.
Ele citou ainda problemas deixados por administrações anteriores e disse que estruturas como a ponte Sérgio Arruda chegaram à sua gestão em situação crítica.



