Falta de medicamentos no Amapá coloca pacientes transplantados em risco de perder os rins recebidos

Pacientes denunciam desabastecimento de dois imunossupressores essenciais há meses na Farmácia de Alto Custo do HCAL. Associação relata dificuldades no tratamento e mobilização entre famílias para evitar a interrupção das medicações.
Pacientes transplantados renais no Amapá enfrentam uma situação preocupante diante da falta de medicamentos essenciais para evitar a rejeição dos órgãos recebidos. A denúncia é da Associação Amapaense dos Renais (AAMAR), que aponta o desabastecimento de dois imunossupressores distribuídos pelo Sistema Único de Saúde (SUS): a ciclosporina, em falta desde junho, e o micofenolato de sódio, indisponível desde outubro.
Os medicamentos são utilizados continuamente por pacientes transplantados e a interrupção do tratamento pode comprometer o funcionamento do rim transplantado, provocar episódios de rejeição e, nos casos mais graves, levar à perda do órgão.
Segundo representantes da associação, o problema atinge pacientes atendidos pela Farmácia de Alto Custo do Hospital de Clínicas Dr. Alberto Lima (HCAL), em Macapá. A estimativa é de que mais de 30 pessoas estejam diretamente prejudicadas pelo desabastecimento no Amapá.
A presidente da AAMAR, Amanda Bastos, é uma das pacientes afetadas. Ela recebeu um rim do próprio irmão há 13 anos, após ser diagnosticada com doença renal crônica. Desde então, depende de medicamentos de uso contínuo para preservar o órgão transplantado.
“Hoje nós estamos vivendo uma situação bem crítica, desde o mês de outubro, com a falta do medicamento micofenolato de sódio, de 360 miligramas. Ele é fundamental para nós, transplantados, justamente para não haver a rejeição do enxerto, do rim que foi doado”, explicou.
Amanda utiliza quatro comprimidos diariamente, sendo dois pela manhã e dois à noite. Ela destaca que o tratamento não pode ser interrompido e que a falta do medicamento coloca em risco anos de acompanhamento médico e a qualidade de vida conquistada após o transplante.
“Hoje a gente vive esse desafio muito triste de lutar pela nossa vida, pela importância que o medicamento tem no nosso dia a dia. São medicamentos de uso contínuo, importantes para que a gente não volte para a máquina de hemodiálise”, relatou.
Falta de ciclosporina se arrasta desde junho
A situação também afeta pacientes que dependem da ciclosporina, outro imunossupressor utilizado para prevenir a rejeição de órgãos transplantados e no tratamento de determinadas doenças autoimunes.
A vice-presidente da AAMAR, Joice Tavares, relata que seu filho, transplantado renal há quase 14 anos, depende diariamente de uma dose de 125 miligramas do medicamento, composta por apresentações de 100 mg e 25 mg.
Segundo ela, a medicação está indisponível na rede estadual desde junho.
“Infelizmente, desde junho, nós estamos sem essa medicação. Está sendo muito difícil, porque não é só ele, por ser paciente transplantado renal. Eu sou lúpica também, e nós, pacientes lúpicos, usamos essa medicação para nefrite lúpica”, explicou.
Joice destaca que a falta do medicamento ameaça tanto pacientes transplantados quanto pessoas com lúpus que necessitam da ciclosporina conforme prescrição médica.
“Para os transplantados, corre o risco ainda de perder o enxerto. Tudo o que nós fizemos para que isso não venha a acontecer fica comprometido porque, infelizmente, no nosso estado, não estamos tendo essa medicação”, afirmou.
De acordo com a associação, não há disponibilidade das apresentações necessárias de ciclosporina na Farmácia de Alto Custo do HCAL.
Pacientes formam rede de solidariedade para conseguir medicamentos
Sem uma solução definitiva para o abastecimento, pacientes transplantados passaram a recorrer à solidariedade de pessoas em tratamento em outros estados.
Joice explica que a associação participa de grupos de apoio formados por pacientes renais de diferentes regiões do país. Quando algum integrante consegue obter medicamentos excedentes, dentro das condições adequadas de conservação e uso, busca ajudar quem está enfrentando dificuldades.
“Fazemos parte de uma rede de apoio de vários grupos. Quando nós vamos para essa consulta, trazemos a medicação, trazemos aqui para a associação e estamos fazendo essa doação para os pacientes que infelizmente não têm”, contou.
A alternativa, entretanto, está longe de resolver o problema. A quantidade recebida nem sempre é suficiente para atender à demanda, especialmente porque o tratamento exige doses diárias e permanentes.
A associação também reclama que, após períodos de desabastecimento, as quantidades não fornecidas nos meses anteriores não são repostas aos pacientes.
Associação cobra solução do governo estadual e do Ministério da Saúde
Representantes da AAMAR afirmam que procuraram as ouvidorias do Ministério da Saúde e da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) para solicitar esclarecimentos sobre a falta dos medicamentos.
Segundo os relatos, o fornecimento do micofenolato de sódio envolve repasses do governo federal, enquanto a distribuição estadual e o abastecimento da ciclosporina dependem da atuação da rede de assistência farmacêutica do Amapá.
A associação afirma ter recebido informações de que dificuldades relacionadas ao transporte estariam impedindo a chegada do micofenolato ao estado. A justificativa, entretanto, ainda precisa ser confirmada oficialmente.
Pelas regras do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF), o Ministério da Saúde e os governos estaduais possuem atribuições diferentes conforme o grupo de financiamento de cada medicamento. Mesmo nos casos de aquisição centralizada pelo governo federal, cabe às secretarias estaduais executar etapas de armazenamento, distribuição e dispensação.
A entidade cobra uma solução urgente e esclarecimentos sobre os estoques, as remessas pendentes e a previsão de regularização do fornecimento.
Amapá não realiza transplantes renais
Outro fator que agrava a situação é a ausência de procedimentos de transplante renal no Amapá. Os pacientes precisam buscar atendimento especializado fora do estado para realizar a cirurgia.
Para quem já passou por esse processo, a possibilidade de perder o órgão transplantado representa não apenas um risco à saúde, mas também a ameaça de retornar à hemodiálise e enfrentar novamente a necessidade de um transplante.
O problema ganha dimensão ainda maior diante da demanda nacional. Segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes, consultados em setembro de 2026 e divulgados pela Fundação Pró-Rim, 45.973 pessoas aguardavam por um rim no Brasil.
Para Amanda e Joice, a luta agora é garantir que os pacientes que já conseguiram um transplante tenham condições de preservar os órgãos recebidos.



