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Delação sobre R$ 2 milhões apreendidos pode ampliar investigação de lavagem de dinheiro no Amapá

Investigados na Operação Testa de Ferro formalizaram proposta de colaboração premiada e se comprometeram a detalhar origem, destino e eventual uso eleitoral dos recursos

Os dois empresários investigados na Operação Testa de Ferro, que resultou na apreensão de R$ 2,5 milhões em dinheiro vivo em Macapá, apresentaram uma proposta formal de colaboração premiada ao Ministério Público do Amapá e à Polícia Civil.

O documento, datado de 24 de setembro, foi encaminhado ao GAECO e à Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco). A proposta cita expressamente o Inquérito Policial nº 7512/2026, o auto de prisão em flagrante decorrente da operação e procedimentos correlatos.

Os proponentes são Luis Felipe Amorim Ferreira e Caio Cesar Santos Pereira, presos durante a investigação. Segundo a proposta, os acordos pretendidos são individuais e autônomos, embora tenham sido apresentados conjuntamente.

A colaboração pode abrir novas frentes na apuração porque os próprios investigados afirmam estar dispostos a narrar os fatos ilícitos dos quais tenham conhecimento e a entregar elementos capazes de corroborar suas declarações. O documento estabelece como objeto da colaboração justamente pontos que, segundo a defesa, ainda não haviam sido esclarecidos pela investigação.

Origem e destino do dinheiro estão entre os principais pontos

Entre as frentes indicadas na proposta estão a identificação da origem dos créditos movimentados pela Gran Ciclo Empreendimentos, o destino dos débitos realizados pela empresa, saques em espécie e a origem e destinação dos R$ 2,5 milhões apreendidos em 18 de setembro.

Relatórios de inteligência financeira citados no documento apontaram movimentações de aproximadamente R$ 2,85 milhões em créditos e R$ 2,87 milhões em débitos na conta da Gran Ciclo entre fevereiro e julho de 2026, além de provisionamentos para saques em espécie de R$ 3 milhões, R$ 1,2 milhão e R$ 1,5 milhão.

A Justiça também havia autorizado bloqueios de até R$ 2,849 milhões nas contas da empresa e de Caio Cesar e de até R$ 322 mil nas contas de Luis Felipe.

No dia da operação, foram encontrados R$ 2,05 milhões em espécie atribuídos a Luis Felipe, além de veículos, arma, munições, celulares, computador, cadernos e máquinas de cartão.

Documento cita hipótese de utilização eleitoral

Um dos pontos mais sensíveis da proposta envolve uma possível destinação eleitoral dos recursos.

Na relação das frentes que poderiam ser esclarecidas pelos colaboradores, o documento menciona expressamente a “hipótese eleitoral” e um possível vínculo indireto com investigado da Operação Red Fall. A própria proposta, entretanto, registra que, naquele momento, a investigação levantava essa possibilidade “sem fato concreto descrito” no material referido pela defesa.

Reportagens publicadas após a operação também relataram que investigadores apuravam a eventual destinação eleitoral do dinheiro, enquanto a origem e o destino definitivos dos valores ainda estavam sob investigação.

Portanto, a eventual identificação de agentes políticos, servidores públicos, empresários ou outros beneficiários dependerá do conteúdo efetivamente apresentado pelos colaboradores e, principalmente, de sua confirmação por provas independentes.

Colaboradores prometem apresentar provas

A proposta estabelece que os investigados deverão entregar provas relacionadas aos fatos dos quais tenham conhecimento. O documento afirma que os colaboradores se comprometem a fornecer elementos de corroboração e, posteriormente, documentos, mídias, senhas e acessos relacionados à investigação.

Esse aspecto é relevante porque a legislação brasileira impede que medidas judiciais mais graves ou condenações sejam fundamentadas exclusivamente na palavra de um colaborador. A própria proposta prevê cláusula segundo a qual nenhuma medida cautelar, recebimento de denúncia ou condenação deverá se apoiar apenas nas declarações prestadas.

Defesa pede perdão judicial e outros benefícios

Em troca da colaboração, os investigados pedem uma série de benefícios.

O principal é o perdão judicial. De forma subsidiária, a defesa requer redução de até dois terços da pena e substituição da prisão por penas restritivas de direitos.

A proposta também pediu a substituição das prisões preventivas por medidas cautelares, além da restituição de veículos e aparelhos eletrônicos e do levantamento de valores bloqueados.

As tratativas, porém, não significam que a colaboração já tenha sido aceita ou homologada, nem que todos os benefícios pretendidos serão concedidos.

O próprio texto apresentado pelas defesas é uma proposta de negociação, cuja efetividade dependerá da avaliação do Ministério Público, da autoridade policial e, posteriormente, do Poder Judiciário.

Investigação continua

A Operação Testa de Ferro apura um possível esquema de lavagem de dinheiro. Informações divulgadas após a operação apontaram ainda suspeitas de ligação da movimentação financeira com uma organização criminosa originária do Rio de Janeiro e com atuação no Amapá.

A apresentação da proposta de colaboração pode ampliar o alcance das investigações caso os relatos tragam informações novas e sejam acompanhados de provas que confirmem a participação de outras pessoas.

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