Estadão revela que Amprev é suspeita de uso em esquema de sonegação após movimentação bilionária apontada pelo Coaf

A Amapá Previdência é alvo de suspeitas de envolvimento em um possível esquema de sonegação fiscal, conforme revelou o Estadão com base em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras. O documento aponta movimentações financeiras consideradas atípicas para o porte do fundo previdenciário estadual.
Segundo a reportagem, cerca de R$ 32 bilhões transitaram pelas contas da Amprev entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026 — sendo R$ 16 bilhões em entradas e R$ 16 bilhões em saídas. O volume chamou atenção por superar, com folga, o faturamento anual do fundo, estimado em aproximadamente R$ 2 bilhões.
De acordo com o Coaf, há suspeita de que terceiros possam ter utilizado a estrutura da previdência estadual para realizar operações com objetivo de sonegação fiscal. Embora a Amprev seja imune à tributação, a hipótese levantada é de que recursos externos tenham sido movimentados por meio do fundo para driblar o pagamento de impostos.
O relatório, no entanto, não detalha quais mecanismos teriam sido utilizados no suposto esquema. Documentos do Coaf servem para identificar indícios de crimes financeiros e podem embasar investigações por órgãos como Polícia Federal e Ministério Público.
Alertas ignorados
A análise também indica que a Amprev realizou repasses ao Banco Master mesmo após recomendações do Ministério da Previdência para revisão desse tipo de investimento.
Entre 2025 e 2026, o fundo enviou cerca de R$ 2,1 milhões ao banco. Além disso, já havia investido R$ 400 milhões em letras financeiras da instituição, modalidade que não conta com garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e é considerada de maior risco.
Auditorias federais já haviam alertado sobre o aumento da exposição de fundos previdenciários a ativos desse tipo. Em 2025, o governo federal alterou as regras e reduziu o limite de aplicações em instituições desse porte de 20% para 2,5%. No caso do Amapá, esse percentual chegou a cerca de 5%.
Operação da PF
A Amprev foi alvo de uma operação da Polícia Federal em fevereiro deste ano, que investigou possíveis irregularidades na gestão dos recursos de aposentados e pensionistas.
Após a ação, o então presidente do órgão, Jocildo Silva Lemos, deixou o cargo. Ele havia sido indicado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Para a função, foi nomeada a ex-secretária de Saúde do Estado, Nair Mota Dias.
A defesa de Jocildo informou que aguarda os relatórios da Polícia Federal sobre as buscas e apreensões realizadas no âmbito da investigação.
O que diz a Amprev
Em nota, a Amprev afirmou que todas as movimentações financeiras ocorreram dentro das normas legais e que não movimenta recursos de terceiros.
O órgão também destacou que administra fluxos elevados de recursos devido à arrecadação de contribuições e pagamento de benefícios, o que explicaria os altos volumes registrados. Segundo a autarquia, os recursos têm natureza pública e são destinados exclusivamente à sustentabilidade do regime previdenciário dos servidores do Estado.



