Meio Ambiente

Mercúrio de garimpos ilegais contamina indígenas no Oiapoque, aponta levantamento do Iepé

Um levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé), em parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena do Amapá e Norte do Pará (DSEI-AP), revelou níveis preocupantes de contaminação por mercúrio entre povos indígenas do município de Oiapoque, no extremo Norte do Amapá. Os dados apontam que mais da metade das amostras analisadas apresentou índices considerados elevados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O estudo foi realizado a partir de uma demanda das organizações indígenas da região e analisou 192 amostras de cabelo coletadas entre pacientes indígenas. Os resultados mostraram que 97 pessoas, o equivalente a 50,5% do total, apresentaram concentração de mercúrio igual ou superior a 6,0 miligramas por quilo (mg/kg), limite considerado elevado pela OMS e associado ao aumento do risco de problemas de saúde.

Segundo o Iepé, a principal fonte de exposição é o consumo de peixes contaminados. O mercúrio utilizado em atividades de garimpo ilegal chega aos rios amazônicos, onde se acumula nos organismos aquáticos e, posteriormente, na cadeia alimentar.

A médica e doutora em Medicina Preventiva Mariana Maleronka Ferron destacou a gravidade da situação. “A contaminação ocorre principalmente pelo consumo de peixes, que são a base da dieta de muitos desses povos. Então, essas pessoas estão mais vulneráveis a essa contaminação. Todos os povos que vivem nessa região podem estar sujeitos a essa contaminação”, afirmou.

Idosos apresentam os maiores índices

Os dados indicam que a exposição ao mercúrio aumenta com a idade. Entre os indígenas de 51 a 60 anos, 75% apresentaram níveis elevados da substância. Já na faixa etária entre 10 e 20 anos, apenas 7% dos participantes registraram resultados acima do limite considerado seguro.

De acordo com os pesquisadores, a diferença é explicada pelo efeito cumulativo do mercúrio no organismo ao longo dos anos.

Entre os homens, a situação também se mostrou mais grave. Cerca de 60% das amostras masculinas apresentaram níveis elevados de mercúrio, enquanto entre as mulheres esse percentual foi de 38%.

Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a situação das mulheres em idade fértil. O levantamento identificou que 31,37% delas apresentaram índices superiores ao limite recomendado, o que pode representar riscos ao desenvolvimento fetal durante a gestação.

Riscos à saúde

A exposição prolongada ao mercúrio pode causar sérios danos à saúde. Entre os principais efeitos estão alterações neurológicas, tremores, perda de memória, insônia, dores de cabeça, dificuldades motoras e cognitivas, além de complicações durante a gravidez.

Os resultados foram apresentados às comunidades indígenas durante uma assembleia da Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM). A presidente da entidade, Janina Karipuna, manifestou preocupação com os impactos da contaminação.

“As consequências da contaminação pelo mercúrio atingem a todos, não só aqueles que estão no garimpo. Todos saímos prejudicados. Por isso é importante ainda fazer novos testes e ampliar a discussão sobre isso nas nossas terras”, declarou.

Alerta para a saúde pública

O Iepé destaca que os resultados reforçam a necessidade de ações urgentes de saúde pública para monitorar e reduzir os impactos da exposição ao mercúrio nas comunidades indígenas do Oiapoque.

A instituição também lembra que a contaminação não afeta apenas os povos indígenas. Estudos realizados nos últimos anos já identificaram a presença de mercúrio em peixes comercializados em feiras e mercados da Amazônia, inclusive em centros urbanos, o que amplia a preocupação para toda a população que consome espécies carnívoras da bacia amazônica.

O relatório completo do levantamento está disponível na plataforma Infoteca, no site oficial do Iepé.

Fonte: Instituto Iepé

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