Relatórios expõem divergências sobre caso no CFO e comandante pede apuração de contatos externos à Academia da PM

Documento registra que pai de cadete buscou providências antes de conversar com o filho; investigação também deve esclarecer contatos com alunos, chegada de informações à imprensa e atuação do coronel Renato
Documentos internos da Polícia Militar do Amapá apresentam uma sequência diferente daquela que inicialmente ganhou repercussão pública sobre o episódio envolvendo o major Takada e o cadete Brendell, aluno do primeiro Curso de Formação de Oficiais (CFO) realizado integralmente no Estado.
Os registros mostram divergências entre as primeiras informações repassadas pelo pai do cadete e aquilo que foi relatado pelo próprio aluno, além de apontarem que o tenente RR Russo, pai de Brendell, já buscava providências antes mesmo de conversar diretamente com o filho.
O caso ganhou um novo capítulo após a comandante da Academia de Polícia Militar, tenente-coronel Sara Farias Souza, encaminhar ao Subcomando-Geral, em 14 de setembro, um relatório circunstanciado pedindo que toda a sequência dos acontecimentos seja remetida à Corregedoria da PM para apuração.
Primeira informação falava em agressão com prancheta
O episódio começou a ser formalmente registrado na tarde do dia 11 de setembro.
Segundo relatório elaborado pelo Oficial de Operações, por volta das 16h17 o tenente RR Russo entrou em contato informando que seu filho teria sido agredido pelo major Takada. Na versão inicialmente apresentada pelo pai, a suposta agressão teria ocorrido com a utilização de uma prancheta.
Diante da gravidade da informação, o Oficial de Operações comunicou a Superior de Dia e se deslocou até a Academia para verificar pessoalmente o ocorrido.
No local, Brendell foi ouvido reservadamente. O relato do próprio cadete, entretanto, apresentou uma diferença importante: ele não afirmou ter sido atingido por uma prancheta. Segundo o documento, disse que Takada teria se aproximado, dado um empurrão e proferido um palavrão.
O Oficial de Operações também registrou que não presenciou o episódio e que não observou lesões aparentes no aluno.
Pai ainda não havia conversado com Brendell
O relatório elaborado posteriormente pela comandante Sara acrescenta um elemento considerado relevante para compreender como a informação começou a circular.
Segundo ela, ao conversar pessoalmente com o tenente RR Russo, perguntou se ele já havia falado com o próprio filho sobre o episódio. A resposta foi negativa. Questionado sobre como havia tomado conhecimento do caso, Russo teria informado que “um oficial” lhe contou, sem identificar quem.
Naquele momento, segundo o relatório, o pai já buscava providências relacionadas à suposta agressão e havia insistido na possibilidade de prisão do major envolvido. Sara então o orientou a conversar diretamente com Brendell antes de adotar medidas baseadas em informações recebidas de terceiros.
Pouco antes de deixar a Academia, Russo teria feito outra declaração à comandante. Segundo Sara, ele afirmou que “três pessoas grandes” já o haviam procurado para saber do episódio ou tentar “se aproveitar do fato”.
A comandante ressalta no próprio documento que essa afirmação não constitui prova de uma atuação articulada. Mesmo assim, considera necessário que a investigação identifique tanto o oficial que inicialmente procurou o pai quanto as três pessoas mencionadas por ele.
Versão formal foi apresentada depois
Outro ponto destacado pela comandante é a cronologia das manifestações do cadete. De acordo com o relatório, a parte formal de Brendell foi apresentada às 21h40, depois de o aluno deixar a Academia, voltar para casa e manter contato com familiares.
Nesse documento posterior, o cadete passou a descrever o empurrão atribuindo-lhe expressamente uma conotação de violência.
Sara não conclui que o contato familiar tenha provocado mudança no relato. O que pede é que a Corregedoria confronte as diferentes manifestações, os horários e a sequência dos acontecimentos para esclarecer se houve alterações relevantes na descrição do episódio.
Prancheta teria envolvido outro cadete
O relatório também apresenta uma explicação para a referência à prancheta.
Segundo a versão prestada pelo próprio major Takada à comandante, houve outro episódio envolvendo esse objeto, mas com o cadete Maurício.
Takada relatou que uma prancheta deixada pelo aluno havia sido encontrada e posteriormente lançada em sua direção para que ele a segurasse. O cadete não conseguiu pegá-la e o objeto acabou atingindo suas pernas antes de cair.
Sara deixa claro que registra apenas a versão apresentada pelo major e que a dinâmica efetiva desse episódio deve ser examinada pela autoridade competente.
Major reconheceu contato físico, mas negou agressão
Em relação a Brendell, Takada reconheceu que houve contato físico.
Segundo o documento, afirmou ter colocado uma das mãos no ombro do cadete durante uma situação de cobrança, mas negou que o gesto tivesse ocorrido com violência ou intenção agressiva.
A comandante não toma essa versão como conclusão. Independentemente da caracterização disciplinar do episódio, determinou que Takada e os demais oficiais não utilizassem contato físico com os cadetes como forma de cobrança durante as atividades.
Contatos diretos com coronel Renato entram na apuração
O relatório da comandante também direciona atenção para fatos anteriores e posteriores ao episódio envolvendo Brendell.
Sara registra que, durante uma visita à Academia, o coronel Renato, diretor de Ensino, teria mantido conversa reservada com cadetes depois de solicitar que os oficiais que os acompanhavam deixassem o local.
Posteriormente, ela recebeu relatos de que Renato teria orientado os alunos a procurá-lo diretamente diante de determinadas situações ocorridas durante o curso.
Sara ressalva que não presenciou essa conversa, mas afirma que levou o assunto ao Comandante-Geral por considerar que uma comunicação direta desse tipo poderia ser interpretada como forma de contornar a cadeia ordinária de comando.
Em outro momento, durante reunião no Comando-Geral, Renato informou ter recebido diretamente de um cadete uma denúncia envolvendo oficiais da Academia. Segundo o relatório, ele afirmou que a intenção da reunião era “alinhar o discurso entre os oficiais”. A comandante respondeu que as acusações deveriam ser formalizadas e apuradas.
Comandante pede que atuação de Renato também seja investigada
Ao final do relatório, Sara solicita formalmente que a Corregedoria examine não somente as condutas atribuídas aos oficiais da Academia, mas também a atuação do coronel Renato.
Entre os pontos que pede para serem esclarecidos estão os contatos mantidos com integrantes do CFO, eventual orientação para que cadetes se reportassem diretamente a ele fora da cadeia ordinária de comando, circunstâncias relacionadas à tentativa de acionamento de equipe responsável por prisão em flagrante e informações referentes ao conhecimento prévio do episódio por veículo de imprensa.
Também pede que seja investigado como informações internas chegaram a terceiros e, posteriormente, à imprensa.
Veículo ligado a Renato aparece em registro com condutor de nome semelhante ao responsável pelo portal
Outro documento obtido pelo Portal acrescenta um elemento que também merece esclarecimento.
Uma consulta aos registros de um GM/Vectra Sedan Elegance, placa NET-0663, mostra que o veículo tinha a posse registrada em nome de Paulo Renato Silva Costa.
Em uma autuação ocorrida em 26 de outubro de 2016, em Santana, aparece como condutor identificado Heverton dos Santos Castro. O registro aponta infração por dirigir veículo sem possuir CNH ou permissão para dirigir.
A documentação também mostra que o automóvel acumulava sete multas em situação de penalidade, com valor total de R$ 8.322,16, referentes a autuações do Detran-AP e da Prefeitura de Macapá entre 2016 e 2022.
O dado chama atenção porque a publicação que deu repercussão às acusações envolvendo a Academia foi feita pelo Portal Amapá, identificado como de propriedade do blogueiro Heverson Castro.
Os documentos apresentados, entretanto, registram o nome Heverton dos Santos Castro. Por isso, o material, sozinho, não permite afirmar que se trata da mesma pessoa. Essa identidade e a natureza de eventual relação entre o responsável pelo veículo e o veículo de comunicação precisam ser confirmadas antes de qualquer conclusão.
Ministério Público já havia requisitado apuração envolvendo Renato
O nome do coronel Renato já aparecia em outra apuração meses antes da atual crise na Academia.
Em junho, a 3ª Promotoria de Justiça Criminal de Macapá recebeu uma notitia criminis envolvendo alegações de interferência atribuídas ao oficial em uma atuação da Polícia Militar. O documento também registra notícias sobre possíveis “ingerências político-institucionais” no alto comando da corporação.
Diante das informações, o Ministério Público requisitou à Corregedoria da Polícia Militar a instauração de procedimento investigatório.
O ofício, expedido em 19 de junho, determinou ainda que a Corregedoria informasse, em até 30 dias, o número do procedimento instaurado.
No conjunto de documentos obtidos até o momento pelo Portal, não consta resposta posterior informando o número do procedimento aberto.
A ausência desse documento, isoladamente, não permite afirmar que a investigação não tenha sido instaurada. Mas cria uma questão objetiva que a Corregedoria da PM precisa esclarecer: a determinação do Ministério Público foi cumprida e qual é a situação atual dessa apuração?
Corregedoria terá de reconstruir toda a sequência
No relatório encaminhado ao Subcomando-Geral, Sara afirma que não pretende antecipar a responsabilidade de qualquer pessoa.
A comandante solicita que sejam investigados os episódios envolvendo Takada, as denúncias formuladas contra a Academia, os contatos mantidos com os cadetes, a atuação do pai de Brendell, eventuais interferências externas e as circunstâncias pelas quais informações internas chegaram a terceiros e à imprensa.
Para Sara, somente a reconstrução completa da sequência — desde os acontecimentos dentro da Academia até a repercussão externa — permitirá determinar o que de fato ocorreu e quais responsabilidades eventualmente existem.
O caso deixa, portanto, perguntas que vão além do episódio entre major e cadete: quem informou o pai de Brendell antes de ele conversar com o próprio filho? Que contatos foram mantidos diretamente com os cadetes? Como informações internas chegaram à imprensa? E o que aconteceu com a investigação que o Ministério Público já havia requisitado à Corregedoria em junho?
São pontos que agora precisam ser esclarecidos formalmente pela Polícia Militar do Amapá.



